Crónica de Alexandre Honrado
Amarfanhar
Dou comigo a desfilar pelo nada, preocupado com coisa nenhuma e uma buzinadela áspera desperta-me para uma realidade azeda e distópica: a sociedade urbana onde me são dados os relevos da minha agitada vida, reclama a minha atenção.
Sempre teimei que a melhor explicação para o que me rodeia podia cingir-se a três coordenadas: o que a realidade parece impor, o que o imaginário é capaz de desfeitear à realidade e, finalmente, a simbólica que nos tolhe e liberta ao mesmo tempo.
Dou comigo então a desfilar pelo nada preocupado com tudo.
Em primeiro lugar a realidade e o que ela parece impor. Nesta fase em que vivemos, a realidade passa pela construção das mensagens políticas que são, quase todas, desconstrução. Do partido alienado, tresloucado, que quer varrer a história com um ancinho, agitando metralhadoras ainda virgens, ódios reciclados e candidatos tirados de hospícios mentais, até ao outro extremo, ao partido que o poder sustém e que pode ou não merecer que o eleitorado lhe sustenha o poder que tem.
Os cartazes à minha volta são dignos de um anedotário intenso.
Depois, para me distrair, discuto com o imaginário. Disse que é capaz de desfeitear a realidade, sabendo eu que desfeitear é um processo de congelação a temperaturas muito baixas. Mas se a realidade congela o que podemos imaginar para a substituir? Um nunca mais acabar de alternativas mornas ou a erupção mais quente e avassaladora, uma força destruidora como as manifestações vulcânicas de La Palma?
A realidade é dura, mais dura a razão que a sustém – e mais desmesurada a imaginação capaz de ultrapassá-la e dar-lhe alternativas.
Finalmente, reparo na simbólica.
Vivemos num tempo em que a pele (do corpo, das casas), se coloriza e desafia em símbolos mais ou menos difusos. Há quem não consiga ler aquilo que escreveu na parede e há muitos que não conseguem ler o que tatuaram no corpo, mas não é por isso que uns e outros se equivocam, acreditando que essas mensagens, que não descodificam, são afinal registos de si e de uma liberdade efervescente e irreverente que tantos ambicionam.
Dou comigo a desfilar pelo nada, preocupado com coisa nenhuma e uma buzinadela áspera desperta-me para uma realidade azeda e distópica: há que entregar o texto, mesmo que a vontade seja pouca e o imaginário ande a tiracolo de uma realidade amarfanhada.
Alexandre Honrado
Pode ler (aqui) todos os artigos de Alexandre Honrado